Pesquisa inédita da ESPM ouviu 267 brasileiros em luto e revela que 40% consideram avatares digitais realistas suficientes para interações simbólicas
Um em cada quatro brasileiros se imagina utilizando inteligência artificial para interagir com um ente falecido. Esse é o principal resultado de pesquisa inédita realizada pela ESPM, referência nacional em Marketing, Inovação e Negócios, sobre a aceitação de thanabots — avatares digitais que simulam conversas com pessoas mortas.
O levantamento, conduzido pelo Centro de Estudos Aplicados de Marketing (CEAM), ouviu 267 participantes que perderam entes queridos recentemente, nos últimos dois anos. O estudo buscou compreender o papel dessas ferramentas de inteligência artificial em contextos de memória e conforto emocional.
Além dos 25% que aceitariam usar thanabots, a pesquisa revela que o mesmo percentual (25%) afirma que se sentiria confortável com essa experiência. Quase 40% consideram que os avatares digitais possuem realismo suficiente para promover interações simbólicas e críveis, enquanto 25% veem benefícios emocionais diretos em seu uso.
O que são thanabots e como funcionam
Thanabots são serviços que utilizam inteligência artificial para criar avatares digitais de pessoas falecidas. A tecnologia simula conversas com entes queridos mortos com base em dados, imagens, registros de voz e histórico de mensagens deixados pela pessoa.
Empresas como Replika, HereAfter AI e Project December já oferecem esse tipo de serviço em países como Estados Unidos e Reino Unido. Os sistemas utilizam:
Processamento de linguagem natural (NLP): Para replicar padrões de fala e vocabulário característicos da pessoa falecida.
Clonagem de voz: Tecnologia de síntese de voz que recria o timbre e entonação baseados em gravações existentes.
Análise de comportamento digital: Processamento de histórico de mensagens, e-mails e posts em redes sociais para identificar personalidade e padrões de resposta.
Avatares visuais: Recriação da aparência física através de deepfake e modelagem 3D a partir de fotos e vídeos.
A experiência pode variar desde conversas apenas por texto até interações com vídeo e áudio que replicam a aparência e voz da pessoa falecida.
Dados principais da pesquisa ESPM sobre IA no luto
O estudo do CEAM/ESPM identificou diversos indicadores sobre como brasileiros percebem o uso de inteligência artificial no processo de luto:
Aceitação de uso: 25% se imaginam utilizando IA para interagir com ente falecido
Conforto emocional: 25% afirmam que se sentiriam confortáveis com a experiência
Percepção de realismo: 40% consideram que thanabots possuem realismo suficiente para interações críveis
Benefícios emocionais: 25% veem vantagens emocionais no uso da tecnologia
Estratégias de enfrentamento: 64% pensam ativamente em estratégias para lidar com desafios da vida
Rede de apoio tecnológica: Mais de 50% contam com rede de apoio que os encorajaria a recorrer a soluções tecnológicas no luto
Desconforto com a morte: 33% ainda se sentem assustados com a ideia da morte
IA como ferramenta de enfrentamento do luto
Para Thamiris Magalhães, pesquisadora envolvida no estudo, o uso dessas ferramentas representa uma maneira contemporânea de lidar com o luto. “A perda de um ente querido é uma experiência emocional muito forte, e escapar, mesmo que momentaneamente disto, é o primeiro pensamento de quem perde alguém”, explica.
A pesquisadora contextualiza que thanabots podem oferecer alívio temporário em momentos de dor intensa. “Para a pessoa que fica, todo dia é dia de luto, e lidar com estas emoções é um desafio grande.”
O dado de que 64% dos participantes pensam ativamente em estratégias para lidar com desafios da vida demonstra predisposição ao uso de recursos tecnológicos que auxiliem no enfrentamento emocional. Essa abertura sugere que brasileiros estão mais receptivos a inovações que ofereçam suporte psicológico.
Questões éticas dos avatares digitais de falecidos
Apesar da aceitação crescente, Thamiris Magalhães destaca que há riscos significativos e que essa prática requer atenção cuidadosa. “Emerge uma questão ética naturalmente sobre este assunto. Estes serviços buscam preservar os aspectos éticos, mas auxiliam na tarefa de elaborar a perda.”
Principais dilemas éticos identificados
Consentimento póstumo: Pessoa falecida não pode consentir com criação de avatar digital que replica sua personalidade e voz.
Prolongamento do luto: Risco de que interação com avatar adie aceitação da perda e processo saudável de elaboração do luto.
Manipulação emocional: Empresas podem explorar vulnerabilidade emocional de pessoas enlutadas para fins comerciais.
Precisão da representação: Avatar pode não refletir fielmente personalidade e valores da pessoa, criando versão distorcida.
Dependência tecnológica: Usuários podem desenvolver dependência emocional do avatar, dificultando desligamento saudável.
Privacidade de dados: Uso de informações pessoais do falecido (mensagens, fotos, voz) levanta questões sobre propriedade e proteção de dados.
Especialistas em saúde mental alertam que thanabots devem ser utilizados como ferramenta complementar, idealmente com acompanhamento psicológico, e não como substituto para terapia ou rede de apoio humana.
Tecnologia emocional ganha espaço no Brasil
Flávio Santino Bizarrias, coordenador do CEAM e pesquisador do estudo, observa que a tecnologia emocional ganha espaço entre brasileiros. “Mais da metade dos entrevistados conta com uma rede de apoio que os encorajaria a recorrer a soluções tecnológicas no processo de luto.”
Ao mesmo tempo, o dado de que um terço (33%) ainda se sente assustado com a ideia da morte evidencia que a abertura à inovação convive com o desconforto tradicional em torno da finitude.
“A pesquisa mostra que os brasileiros estão mais dispostos a discutir temas que antes eram evitados e a incorporar a inovação de forma mais humana. Essa abertura revela um novo campo de reflexão sobre como a inovação pode contribuir para o acolhimento e o bem-estar emocional”, afirma Flávio.
Comparação cultural
A aceitação de 25% dos brasileiros contrasta com dados de outros países:
Estados Unidos: Cerca de 30% demonstram interesse em thanabots, segundo pesquisa da Universidade de Cambridge (2023)
Japão: 45% aceitariam usar tecnologia semelhante, refletindo cultura mais aberta a robós e avatares digitais
Reino Unido: 18% se sentiriam confortáveis com a ideia, demonstrando maior resistência cultural
O Brasil posiciona-se em patamar intermediário, sugerindo equilíbrio entre curiosidade tecnológica e cautela em relação a temas sensíveis como morte e luto.
Mercado de thanabots e tecnologias de luto digital
O mercado global de tecnologias voltadas para luto e memória digital está em expansão. Empresas pioneiras oferecem serviços variados:
Replika: Chatbot de IA que pode ser treinado para replicar personalidade de pessoa específica, embora não seja exclusivo para falecidos.
HereAfter AI: Plataforma que cria “memórias interativas” onde familiares gravam histórias e respostas a perguntas, criando avatar conversacional.
Project December: Serviço que utiliza GPT-3 para criar chatbots personalizados baseados em informações fornecidas sobre o falecido.
Eternime: Proposta de criar avatar digital que continua evoluindo após a morte, baseado em dados coletados durante a vida.
StoryFile: Tecnologia de vídeo interativo onde pessoa grava respostas a perguntas antecipadas, criando experiência conversacional pós-morte.
No Brasil, ainda não há empresas consolidadas oferecendo thanabots comercialmente, mas o interesse acadêmico e a aceitação identificada pela pesquisa ESPM sugerem potencial de mercado.
Perspectivas de psicólogos sobre thanabots
Profissionais de saúde mental têm opiniões divididas sobre o uso de inteligência artificial no processo de luto:
Visão favorável: Alguns psicólogos reconhecem que thanabots podem oferecer fechamento emocional, permitindo que enlutados expressem sentimentos não ditos ou façam perguntas que não puderam fazer em vida.
Visão crítica: Outros alertam que a tecnologia pode interferir no processo natural de luto, que envolve aceitação gradual da ausência permanente.
Abordagem equilibrada: Consenso crescente de que thanabots podem ser úteis como ferramenta temporária de transição, especialmente em mortes súbitas ou traumáticas, desde que usados com acompanhamento profissional.
Associações de psicologia em diversos países começam a desenvolver diretrizes éticas para uso de IA no luto, reconhecendo que a tecnologia veio para ficar e requer regulamentação adequada.
Regulamentação e aspectos legais no Brasil
No Brasil, o uso de thanabots ainda não possui regulamentação específica, mas envolve questões relacionadas a:
Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD): Dados pessoais do falecido pertencem aos herdeiros? Quem pode autorizar criação de avatar digital?
Direitos autorais: Voz e imagem da pessoa falecida estão protegidas? Família pode impedir uso comercial?
Direito à memória: Existe direito de preservar memória do falecido contra representações inadequadas?
Marco Civil da Internet: Como se aplicam regras sobre conteúdo gerado por IA que replica pessoas reais?
Especialistas em direito digital apontam necessidade de legislação específica que equilibre inovação tecnológica com proteção da dignidade dos falecidos e bem-estar dos enlutados.
Reflexões sobre morte, tecnologia e humanidade
A pesquisa da ESPM sobre thanabots revela mudança cultural significativa no Brasil. A disposição de 25% da população em utilizar IA para interagir com entes falecidos indica que tecnologias antes consideradas ficção científica ou tabu estão sendo normalizadas.
Essa aceitação levanta questões filosóficas profundas: O que significa “manter viva” a memória de alguém? Avatares digitais honram ou desrespeitam os mortos? A tecnologia deve intervir em processos naturais como o luto?
As respostas variam culturalmente e individualmente, mas o estudo sugere que brasileiros estão mais abertos a explorar essas fronteiras do que se imaginava. A convivência de 40% que veem realismo nos thanabots com 33% que se sentem assustados com a morte mostra sociedade em transição, negociando entre tradição e inovação.
“Essa abertura revela um novo campo de reflexão sobre como a inovação pode contribuir para o acolhimento e o bem-estar emocional”, conclui Flávio Santino Bizarrias.
À medida que inteligência artificial se torna mais sofisticada, thanabots provavelmente se tornarão mais realistas e acessíveis. A pesquisa da ESPM oferece snapshot importante de como sociedade brasileira está se preparando — ou não — para essa realidade.
FAQ – Perguntas frequentes sobre thanabots e IA no luto
O que são thanabots? Thanabots são avatares digitais que utilizam inteligência artificial para simular conversas com pessoas falecidas, baseados em dados, imagens, voz e histórico de mensagens deixados pela pessoa.
Quantos brasileiros aceitariam usar thanabots? Segundo pesquisa da ESPM, 25% dos brasileiros se imaginam utilizando IA para interagir com ente falecido, e o mesmo percentual se sentiria confortável com a experiência.
Thanabots são seguros emocionalmente? Especialistas recomendam uso com acompanhamento psicológico. Há riscos de prolongamento do luto e dependência emocional, mas também potencial de fechamento emocional em casos específicos.
Thanabots são legais no Brasil? Não há regulamentação específica. Questões relacionadas a LGPD, direitos autorais e dignidade dos falecidos ainda carecem de legislação direcionada.
Como funcionam os avatares digitais de falecidos? Utilizam processamento de linguagem natural, clonagem de voz, análise de comportamento digital e deepfake para replicar personalidade, voz e aparência da pessoa falecida.
Existe consentimento da pessoa falecida? Não. Este é um dos principais dilemas éticos, já que pessoa morta não pode consentir com criação e uso de avatar que replica sua identidade.
Thanabots podem ajudar no processo de luto? Podem oferecer fechamento emocional temporário e permitir que enlutados expressem sentimentos não ditos, mas não devem substituir terapia ou rede de apoio humana.

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